Por que sinto que minha vida está passando rápido?

Tem uma pergunta que não me sai da cabeça. Será que a gente está realmente vivendo os nossos dias, ou só passando por eles?
Sexta-feira chega e você pensa: "Nossa, já é sexta?". O mês termina e você comenta: "Meu Deus, o mês voou". Quando percebe, passou mais um ano. E daqui a pouco a gente está cantando "Então é Natal" outra vez.
Tem uma frase de um filósofo chamado Sêneca, que viveu quase dois mil anos atrás, que resume isso de um jeito cirúrgico. Ele escreveu um livro chamado Sobre a brevidade da vida, e nele disse mais ou menos o seguinte: não é que a gente tem pouco tempo. É que a gente perde muito dele.
Parei nessa frase por dias. Porque a gente vive dizendo que não tem tempo. "Ah, precisava de mais horas no dia." "Quando eu tiver tempo, eu faço." "Se eu tivesse um tempinho a mais..." Mas será que o problema é falta de tempo? Ou será que o problema é o que está acontecendo com o tempo que nós já temos?
Eu não estou falando isso como quem já descobriu a resposta. Estou falando justamente porque também me faço essa pergunta.
O piloto automático da vida
A gente acorda, levanta, toma banho, toma café, se arruma, vai trabalhar. Resolve uma coisa, resolve outra. Volta para casa, gasta algumas horas no celular, assiste alguma coisa, se atualiza das notícias, come, dorme. E amanhã começa tudo de novo.
Não estou dizendo que isso tem algo de errado. A vida é feita de coisas comuns. O problema é quando a gente começa a fazer tudo isso sem nem perceber que está fazendo.
É quando a vida vira automática. É quando os dias se misturam. É quando a gente chega no fim de um mês sem lembrar o que aconteceu no meio dele.
E aí vem a pergunta que incomoda: onde é que eu estava enquanto a minha vida estava acontecendo?
Uma oração que não pede mais tempo
Tem um salmo da Bíblia, o Salmo 90, que sempre me chama atenção quando penso sobre isso. O salmista faz uma oração assim: "Ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos corações sábios".
Repare numa coisa curiosa. Ele não pede mais dias. Ele não pede mais tempo. Ele não pede uma vida mais longa. Ele pede algo completamente diferente: ensina-nos a contar os dias que já temos.
Como quem diz: "Deus, me ensina a perceber o valor do tempo que eu já tenho nas mãos".
Porque talvez a gente passe boa parte da vida esperando pelo próximo momento. Quando eu terminar a faculdade. Quando eu sair desse trabalho. Quando as coisas melhorarem. Quando eu tiver mais dinheiro. Quando eu resolver aquele problema. Quando chegar aquele momento, aí eu vou aproveitar.
E enquanto a gente espera por algum momento, o hoje está acontecendo.
Você está presente na vida que está vivendo?
Essa é uma pergunta que dói, porque é possível a gente estar fisicamente num lugar e mentalmente em outro.
Você está conversando com alguém e pensando no trabalho. Está no trabalho e pensando na sua casa. Está em casa e preocupado com algo que precisa resolver amanhã. Está com a sua família e a cabeça está em outro lugar.
E o dia vai passando.
Talvez viver seja aprender a estar presente. Não significa abandonar os planos, nem parar de refletir sobre o que precisa ser resolvido. Significa não deixar o presente passar despercebido. Porque esse, eu acho, é o nosso verdadeiro problema.
Um convite simples
Não é um desafio de mudar a vida. Não é uma revolução. É só um convite para prestar atenção.
Quando você estiver tomando café, perceba o café. Quando estiver conversando com alguém, esteja ali de verdade. Quando estiver no trabalho, faça o seu melhor. Quando estiver com a sua família, aproveite aquele tempo, sem dividir a atenção com o celular.
Em algum momento do dia, para por alguns segundos e se pergunte: o que eu estou fazendo com o meu dia? O que eu estou fazendo da minha vida?
Talvez essa pergunta seja desconfortável. Eu a fiz para mim esses dias. Mas talvez seja exatamente isso que precise acontecer. Talvez ela te faça perceber que alguma coisa precisa mudar. Talvez ela te faça perceber que coisas boas estão acontecendo agora, e você não estava enxergando.
Sêneca e o salmista chegam ao mesmo lugar
É curioso pensar que um filósofo romano que viveu dois mil anos atrás e um salmista hebreu antigo cheguem à mesma conclusão. Sêneca disse: não desperdice o tempo. O Salmo 90 diz: ensina-nos a contar os nossos dias.
As duas ideias apontam para o mesmo lugar. O tempo que temos é limitado. Então talvez valha a pena aprender a prestar atenção nele.
Não para se cobrar, nem para viver ansioso com cada minuto. Mas para viver. De verdade. Presente. Acordado.
Porque no fim, não é sobre quanto tempo a gente tem. É sobre o que a gente faz com o tempo que recebeu.
Uma pergunta para você
Se você chegou até aqui, eu quero te devolver uma pergunta. Não precisa responder para mim, mas responde para você mesmo.
Você está vivendo os seus dias? Ou está apenas matando tempo e deixando a sua vida passar?
Pensa nela durante o seu dia. E se quiser, me conta aqui nos comentários alguma coisa que essa pergunta fez você perceber. Vai ser uma alegria ler.
Se este texto fez sentido, compartilha com alguém. Talvez alguém que você conhece também precise parar e olhar para o próprio tempo.
"Que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei. Se quero explicar a quem pergunta, não sei."
— SANTO AGOSTINHO